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Solução para os seus problemas: as ranhuras em Congonhas

 
 
26/07/07  - Solução para os seus problemas: as ranhuras em Congonhas
 
Claudinet Antônio Coltri Júnior é consultor organizacional nas áreas de marketing, gestão de pessoas, gestão estratégica e coordenador e professor universitário (UNIVAG).

Tenho aprendido com as “cacetadas” que a vida nos dá, que, sempre que pudermos, devemos contribuir para que se chegue à verdade. A cada situação que deixamos passar sem a nossa contribuição para o que pensamos ser correto, estamos, na verdade, sendo também responsáveis pelo que acontecerá devido à nossa não intervenção. Por isso, apenas por isso, vou falar.

O processo de generalização no ser humano é algo que muita gente sabe usar bem (contra os outros). Desde a hora do acidente da Tam, estão colocando a culpa nas ranhuras da pista de Congonhas. E quase todo mundo está repetindo isto. Ouviram (e vão ouvir) falar tanto disto que se tornou verdade. Eu tenho dito que a chance de não ter ocorrido o acidente, caso houvesse as ranhuras na pista em Congonhas, é a mesma de, em elas existindo, eu nunca mais ter dor de cabeça, ou em qualquer outra parte do corpo. Ou seja, ainda não vi, pelo menos até agora, evidência de relação. Explico.

As ranhuras na pista têm função auxiliar no processo de frenagem, e não fundamental. Deste modo, caso elas fossem a causa do acidente, o avião chegaria ao final da pista derrapando, mas já com velocidade muito reduzida, no máximo, caindo na Avenida Washington Luiz. Não foi o que vimos. Vimos uma aeronave em altíssima velocidade ao final de quase dois quilômetros de pista. É, meus senhores, a pista de Congonhas tem quase dois quilômetros (e eu que desci várias vezes - de Air Bus - em São José do Rio Preto e Barretos com pistas bem menores!).

A exibição do vídeo que mostrou o pouso mostra que não há diminuição de velocidade, tão pouco derrapagem. O sistema de frenagem da aeronave, seja lá por qual motivo, não funcionou totalmente, com ranhuras ou sem ranhuras. Essas ajudariam a evitar a derrapagem e não foi o que vimos. Vemos, no vídeo, apenas o avião passando que nem um foguete pela pista.

Há quem conteste o vídeo, dizendo que aumentaram a velocidade da aeronave nele. Tudo bem, mas a velocidade do impacto no prédio da TAM Express não foi de uma aeronave que estava parando (o que deveria estar acontecendo ao final de quase dois quilômetros de pouso). O avião invadiu o prédio assim como os dos atentados em 11 de setembro de 2001. Com vídeo ou sem vídeo, o impacto foi violentíssimo e em alta velocidade.

Ah, dizem que ele estava em alta velocidade porque ele tentou arremeter. Até pode ser, mas a quebra do dispositivo de escoamento de água na cabeceira da pista pode provar o contrário, visto que mostra que até o último segundo em que pôde, a aeronave estava no chão, na pista. E cá entre nós, você arremeteria uma aeronave desgovernada (derrapando)? Se ela não está equilibrada no chão, que dirá no processo de decolagem!

Dizem haver outro motivo: a derrapagem de uma outra aeronave no dia anterior. Pensem: efetivamente, o que tem a ver uma coisa com a outra? Vamos exercitar: são por volta de trezentos e cinqüenta pousos (e trezentos e cinqüenta decolagens) por dia. Se a derrapagem do outro tráz evidência da causa do avião acidentado, podemos pensar ao contrário também, ou seja, trezentos e quarenta e nove aeronaves pousaram sem derrapar – muitas delas com chuva - nas últimas vinte e quatro horas antes do acidente (fora os outros dias), o que não garantiu que o acidente não ocorresse. Se, para cada pouso correto, houvesse um outro com derrapagem, poderíamos começar a pensar na hipótese.

O jornal O Estado de São Paulo publicou matéria na última terça-feira falando que aquela mesma aeronave pousou duas vezes com sucesso em Congonhas no mesmo dia (uma delas com um nível de chuva duas vezes maior do que na hora do acidente).

Precisamos cuidar para não julgarmos os outros com precipitação. Estão jogando duzentas mortes nas costas do governo e, especificamente neste caso (não no caos do transporte aéreo, mas neste caso), ele não tem a mínima culpa (e o piloto também não). Quem tem? Não sei. Precisamos analisar todas as variáveis possíveis e levar tudo o que for possível em consideração. De todas as variáveis, racionalmente, as ranhuras são as menores até agora. Cuidado com as generalizações!

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