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Sem perder as cores do arco-íris

 
 
05/07/07  - Sem perder as cores do arco-íris
 
Rose Domingues, jornalista em Cuiabá-MT. E-mail: rosedomingues@hotmail.com

"Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo. E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo. Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva. E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva. Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel. Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu...".

O mundo das crianças pode ser facilmente expresso com a fantástica Aquarela, música de Toquinho e Vinícius, que por muitos anos foi tema dos lápis de cores Faber Castell. Imaginação, curiosidade e nenhuma fronteira. Na infância, pode-se tudo, ainda que no campo das idéias. Os sonhos são tão reais que alimentam o pequeno ser, que cresce a cada dia, como uma plantinha, seguindo os raios do sol.

A primeira decepção? Talvez descobrir que o papai Noel não existe, por volta dos sete anos, quando flagra os pais, pela janela, tirando os brinquedos do porta-malas do carro. Mas ainda assim, perde horas olhando para o ferro-velho e montando o quebra-cabeça daquele disco voador que levará para outras galáxias, onde conhecerá um universo grandioso e particular. Cabe aos pais cultivar esta doce brisa, sem necessidade de preservar o filho numa "bolha".

Mas como oferecer outras opções diante de mundo deteriorado e perdido? Se a equação fosse simples talvez a depressão não fosse o mal do século. O problema principal está na inversão de valores trazida pela busca incessante dos bens de consumo, posição social e espaços de poder. Perdeu-se o gosto pelo simples, como conversar no fim de tarde com um vizinho, contar histórias, dormir ou até mesmo ter sábados e domingos para descansar e estar com a família.

As exigências obrigam inclusive muitas crianças a uma rotina estressante cada vez mais cedo. Faz-se de tudo em nome do desenvolvimento do "potencial". Aula de tudo quanto é coisa. Mas esquece-se da importância do brincar no universo infantil, o que refletirá num futuro cheio de "máquinas", programadas talvez para o sucesso, mas sem um pingo de criatividade, espontaneidade e sensibilidade. Ouso dizer, gerações capengas, sem capacidade de indignação e de trazer mudanças a este mundo.

Se por um lado pais correm para dar o que acreditam ser o melhor e acabam saturando as crianças, por outro, as famílias pobres estão entregues à própria sorte. Homens fogem da responsabilidade de manter os filhos. É cada vez mais frequente mulheres assumirem sozinhas esse lugar penoso, para arrebanhar no final de 30 dias de árduo trabalho míseros R$ 380, ou um salário mínimo. Sem falar naquelas que nem isso ganham. Nas ruas, meninos e meninas aprendem que a lei do mais forte nem sempre está a favor deles, muitos viram marginais ou prostitutas.

São dois extremos. Posso não viver nele, mas sinto a cada dia as obrigações do trabalho me empurrarem para uma estrada quase sem fim, onde não vejo saída. Menos dinheiro, mas dedicação, pouca valorização e estagnação. O mercado dita regras inflexíveis e absurdas, como se o capitalismo entranhasse nas pessoas transformando-nas em meros robôs, programados para seguir uma cartilha. Não se pode sentir, pensar ou fugir de um padrão. Vejo as relações interpessoais se deteriorando, assim como uma banalização da capacidade de discernimento e criticidade. Gente "reclamona", diz-se assim.

Do mundo aquarelável sobraram apenas os lápis branco e preto, num mundo cinza. Ou apenas monocromático só no azul carregado, no vermelho sangue ou roxo da morte. É uma pena não se usar todas as cores, para delinear um belo desenho, particularizado e estimulante, afinal, o ser humano é um oceano de possibilidades. Meus filhos conhecem todas estas limitações, própria do planeta e dos seres que aqui vivem, mas gostaria que conseguissem se manter além delas, porque dias melhores virão.

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