Claudinet Antônio Coltri Júnior é consultor organizacional nas áreas de marketing, gestão de pessoas, gestão estratégica e coordenador e professor universitário (UNIVAG).
Uma coisa que tem me intrigado muito é uma guerra de gerações (guerra velada) que temos vivido. É um tal de “no meu tempo não era assim”; “antigamente as coisas eram diferentes”; “naquela época existia respeito”; ou, ainda, “no passado, a corrupção era muito menor”. Sinto em dizer-lhes, em primeiro lugar, que não há o meu, o seu, ou o tempo do outro. Enquanto estamos vivos, o tempo vivido é o nosso tempo. Nossos atos (ou ausência deles) têm impacto direto nas relações sociais, quer queiramos ou não, quer sejamos crianças, jovens, adultos ou da terceira idade.
Voltando ao assunto, recebi uma mensagem pela internet intitulada “tudo mudou”, que fala sobre a indignação das pessoas com mais de cinqüenta anos sobre a nossa realidade de hoje. Ela traz algumas coisas legais ocorridas nos últimos cinqüenta anos, como a popularização da TV, do chuveiro elétrico, da declaração dos direitos humanos etc. Fala também que bandidos eram o Meneghetti e o da Luz Vermelha. Fala, ainda, que presidente da república era alfabetizado. Fala que caseiro não era mais ético que ministro, entre outras coisas. Termina dizendo que é preciso parar o mundo que “os caras” de 50 anos querem “descer”.
Isso me fez pensar em algumas perguntas: a TV só trouxe o bem? Ou será que ela é a grande responsável pela falta de diálogo na família, visto que, quando chegamos em casa, ao invés de brincarmos com nossos filhos, ligamos a tal caixa e ficamos absortos em sua frente? Bom, se a TV começou o processo de popularização há 50 anos, não fui eu, nem quem tem cinqüenta anos, os únicos responsáveis por esse processo. Tudo se iniciou com as pessoas que hoje têm mais de 70 anos (tinham no mínimo vinte naquela época).
A declaração de direitos humanos é linda, mas ainda temos em torno de 700 milhões de indigentes no mundo e mais de 800 milhões de pessoas subnutridas. Nenhum de nós, com trinta, quarenta, ou cinqüenta anos a fez, efetivamente, vingar.
Quanto ao caseiro, quem disse que ele é mais ético que ministro? A quebra de sigilo foi irregular, antiética, mas, por bem ou por mal, mostra uma quantia em sua conta que não foi explicada (se isso for ético, quem pede para parar o mundo para descer, sou eu!). A questão não é quem é mais ou quem é menos ético. Ética é como a gravidez: não existe meio grávida e não existe meio ético.
Bom, mas o pior de tudo é falar sobre o presidente analfabeto. Aqui cabe falar sobre como as mudanças acontecem. As coisas vão ocorrendo uma a uma, vagarosamente. As mudanças são quase que contínuas. Mas a descontinuidade também existe. É quando um fato totalmente novo vem e causa forte impacto. Vivemos uma época de descontinuidade.
Como exemplo de descontinuidade, temos o infarto do miocárdio. Depois de sofrer um, a pessoa precisa mudar totalmente seus hábitos de vida (se não morrer, é claro). Não dá mais para fazer as mesmas coisas. Mas o infarto é algo que ocorre de repente? Sim, porém a causa, não. As veias não entopem de repente. O infarto (descontinuidade) é oriundo de um processo de tendência (depósito de substâncias nas artérias que vão acontecendo paulatinamente). O que quero dizer com isso? Se você é desses que quer “descer” do mundo, pense melhor: o presidente analfabeto foi eleito, talvez porque os catedráticos não deram conta do recado (ou até 2002 vivemos no paraíso e eu, assim como a Carolina do Chico Buarque, não consegui ver?). Não devemos esquecer que, nos últimos vinte e poucos anos, passamos catorze deles com um presidente poeta e outro sociólogo. E, mesmo assim, a veia entupiu.
O fato é que não conseguimos colocar telhado sem a parede e a parede sem o alicerce. Muitos dos que reclamam de hoje foram a parede ou o alicerce para os nossos dias. Por isso, não reclame, não queira descer do mundo (vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois – Beto Guedes, O Sal da Terra). O futuro (com suas tendências e descontinuidades) está sendo traçado hoje, por mim, por você, seja com trinta, cinqüenta, setenta anos (e etc.). É hora de assumirmos o leme do nosso mundo. E, se um dia eu reclamar da realidade, por favor, me mostrem o que escrevi hoje.
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