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Síndrome de down: O depoimento de um pai

 
 
20/06/07  - Síndrome de down: O depoimento de um pai
 
Ana Cristina da Silva Serra, estudante de Jornalismo em Várzea Grande, MT. E-mail: anacristinaserra@terra.com.br

Ele sempre viveu nas festas, baladas e levou uma vida com o único propósito de aproveitar. Foi uma pessoa ignorante com o próximo, nunca teve um relacionamento fixo e mantinha relações sexuais sem prevenção com várias mulheres, no mesmo período. Ele afirma que também foi freqüentador assíduo de boates, em locais conhecidos como “zona, bordel”. E justamente do relacionamento com uma garota de programa, nasceu seu primeiro filho.

Marcelo nunca sonhou em ser pai, tampouco tentou. Pelo contrário, ele assume que provocou alguns abortos, com o medo de se sentir pressionado. Hoje, Marcelo, empresário, com 28 anos, se vê em uma situação jamais imaginada por ele. É pai de uma criança especial. Especial porque nasceu com síndrome de Down e também com uma deficiência no braço esquerdo.

Abaixo, o relato de quem aprendeu a conviver com o preconceito em vários níveis. O relato de um pai de primeira viagem que viu seu mundo desabar, mas conseguiu dar a volta por cima. Os nomes foram trocados para preservar a identidade da criança.


Ana: Quais eram as suas expectativas para ter um filho?

Marcelo: Bom, pra ser sincero, eu nunca pensei em ter um filho. Considerava-me muito novo, com a vida toda pela frente.Eu nunca gostei de me prender a mulheres, muito menos a um filho. Eu também nunca tive muitas experiências com crianças.

Ana: E qual foi a sua reação ao descobrir que seria pai?

Marcelo: A minha reação foi a de uma pessoa sem juízo. Eu acreditava que não era meu, cheguei a ter certeza disso.

Ana: Você tentou impedir a gestação do bebê?

Marcelo: Hoje eu me arrependo do que fiz junto com a minha namorada, mas tentei impedir sim. Foi um momento de burrice da minha parte, e dela também.

Ana: O que você fez?

Marcelo: Comprei várias pílulas de Citotec (medicamento que tem efeito abortivo) e dei pra ela ingerir.

Ana: Foi a primeira vez que você provocou um aborto?

Marcelo: Não. Não foi a primeira vez, já fiz outras vezes.

Ana: Em que ocasiões ocorreram esses abortos?

Marcelo: Esse seria o quarto aborto. Aconteceram com outras namoradas, mas todos foram com o consentimento delas. Nunca forcei nenhuma delas. Elas vinham me dar a notícia, e diziam que eu teria que casar com elas. Como nunca fui de relacionamentos sérios, eu dava um jeito de cair fora. Em alguns casos, o pedido partiu da parceira que estava comigo naquele momento.

Ana: E o que a sua namorada, a Danielly, dizia? Ela aceitou?

Marcelo: No inicio, ela tentou me forçar a casar com ela. Eu fiquei assustado com tanta pressão vindo da parte dela. Foi aí que sugeri o remédio.Ela aceitou sim. Na época, eu não sabia, mas hoje sei que ela já tinha feito outros abortos com sucesso.

Ana: Como foi a gestação?

Marcelo: Foi tranqüila, fizemos o pré-natal, eu acompanhei todo o processo junto com ela, nós começamos a morar juntos.

Ana: Como foi a convivência entre o casal?

Marcelo: A Danielly sempre foi ciumenta. Com a convivência, isso só aumentou. As brigas eram constantes.

Ana: E como foi o nascimento do seu filho?

Marcelo: Nossa, eu estava no meu trabalho, me preparando pra viajar até Rondônia, o parto iria acontecer lá, junto da família dela, quando me ligaram informando sobre o nascimento do bebê.

Ana: E qual foi a sua sensação nesse momento?

Marcelo: Eu fiquei radiante de alegria, saí falando pra todo mundo, liguei pros meus pais, para os amigos, e já estava me preparando para viajar. Mesmo sem conhecê-lo, eu já o amava. Umas duas horas depois, a Danielly me ligou novamente. Dessa vez ela estava gritando e chorando no telefone. Disse que o bebê tinha um problema.

Ana: E qual foi a sua reação?

Marcelo: Eu fiquei assustado, desesperado, comecei a chorar compulsivamente, não esperava que isso ocorresse justo comigo, com o meu filho. As informações eram desencontradas, cada hora ela me ligava dizendo uma coisa. Foi aí que a pediatra me ligou dizendo que meu filho havia nascido com Síndrome de Down e com um braço menor que o outro.

Ana: Como foi o seu primeiro encontro com o bebê?

Marcelo: Foi triste. Triste porque eu não estava preparado psicologicamente para ver aquela cena. Ele tão inocente, em uma incubadora.

Ana: Você se referiu a ele como inocente. Você acredita que a Síndrome de Down e a deficiência nos membros têm relação com as tentativas de aborto?

Marcelo: Tenho certeza que sim.

Ana: Existe sentimento de culpa?

Marcelo: Claro que sim. Eu poderia ter evitado isso tudo.

Ana: Como você tem encarado a Síndrome de Down? E a deficiência física do bebê?

Marcelo: Nós voltamos pra Cuiabá com o bebê. Eles ficaram em minha residência, já que eu morava sozinho. Fizemos o teste de DNA e foi comprovado o que eu já imaginava: Ele é meu filho. Hoje, ele tem dois anos, e aprendi muito com ele, e a lidar com ele. Mudei totalmente o meu jeito de ser e passei a ver o mundo de outra forma. Até já conheci outras pessoas que enfrentam esse mesmo problema. Essas pessoas são extraordinárias. Ele é um anjo enviado por Deus para mudar a nossa vida. Eu encaro da melhor maneira, sempre com muito amor pra ele.

Ana: Como está sendo a mudança de vida que esse filho lhe trouxe?

Marcelo: (dá uma risada antes de responder) Hoje, me considero uma pessoa feliz, de bem com a vida. Posso estar cansado, cheio de problemas no meu trabalho, mas quando chego em casa e me deparo com ele, tudo passa, fico aliviado em saber que ele está bem, gosto de ver o desenvolvimento dele. Eu prefiro ficar em casa com ele, do que sair para as baladas. Sinto-me uma criança perto dele.

Ana: Qual a sua relação com a Danielly, mãe do menino?

Marcelo: Nos damos muito bem, temos um enorme amor por essa criança. Tenho certeza que ele nos une a cada dia. Hoje eu sou o que nunca me imaginei: um homem casado e pai de um filho lindo.

Ana: E qual é a sua relação com a sua família?

Marcelo: Assim como pra mim, pra eles foi um grande choque. A minha família é de classe média, não há registros na família de pessoas com Síndrome de Down, nem com alguma deficiência no corpo. No princípio, minha mãe ficou arrasada, não queria ver a mãe do bebê. Houve muitas brigas, muito preconceito da parte dela. Hoje, tudo está mais amenizado. Ou melhor, quase tudo...

Ana: O que você tem feito para socializar o seu filho?

Marcelo: Eu saio com ele pra todos os lugares, sem nenhuma exceção. Vamos aos shoppings, passeamos bastante.

Ana: Vocês já sofreram preconceito?

Marcelo: Claro que sim. As pessoas pensam que quem tem a Síndrome de Down é um debilóide, um bobão. Sou testemunha de que isso é mentira. Meu filho é muito esperto. Lembro-me de quando fomos a um restaurante, desses que têm um play ground para as crianças. Deixei ele lá e, minutos depois, uma assistente veio nos avisar que não poderia cuidar do meu filho, que ele dava muito trabalho. Fiquei furioso porque sei que era mentira dela. Na verdade, ela estava com nojo e com preconceito contra o meu filho.

Ana: E como é lidar com isso?

Marcelo: É muito triste. Triste mesmo. Já chorei ao ver meu filho sendo discriminado. Depois que a novela Páginas da Vida mostrou o caso da personagem Clara, eu acredito que as pessoas começaram a se conscientizar mais em relação a essas crianças. Fiquei feliz com essa novela, pode clarear a mente de muita gente. É difícil ver seu filho ser tratado como um ser diferente, de outro mundo. Quando isso ocorre, eu tento amenizar a situação e encher ele de amor.

Ana: Você tinha preconceitos antes em relação a crianças com Síndrome de Down?

Marcelo: Se eu lhe disser que não tinha, eu vou estar mentindo. É claro que eu tinha. Minha educação me ensinou a ter esses tipos de preconceitos.

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