Sara Carra, estudante em Porto Alegre, RS
Um dia, todos vão lembrar de seu Evaristo. E do que aconteceu naquela noite, quando estava voltando pra casa, quando foi abordado por quatro homens mal-encarados. Fugiu, tentando salvar seu pobre celular da TIM, quando viu tudo escurecer, mas não de uma vez só, aos poucos. Sentiu seu sangue quente escorrer pelas costas e uma mão arrancar-lhe o celular e, como se não bastasse, aquele seu relógio de família, também.
Sentiu o calor do sol em sua cabeça. Viu inúmeras pessoas saindo da igreja, algumas chorando, outras com indiferente curiosidade. E o padre gritando, “IRMÃOS! IRMÃOS!”. Como ele gostaria que o padre parasse. Estava tentando descansar em paz em seu confortável caixão. Caixão?! Que estranho! Costumava descansar em seu colchão “Ortobom”!!!!
Chegaram ao cemitério, colocaram-no no chão e ele pôde ver melhor as pessoas chorosas. Seu coração sempre amolecia quando via alguém chorar, o que, aliás, era um artificio muito usado por seus filhos quando queriam algo. Agora, no entanto, ele encarava aquelas lágrimas com uma frieza incontestável. Quando viu aquele seu odiado sócio, sorrindo-lhe maliciosamente e discretamente, pela primeira vez não sentiu impulso de pular em seu pescoço e estrangulá-lo, ali mesmo, na frente de todos. Viu seu filho menor e sua mulher chorando desesperadamente, mas, pela primeira vez, não se importou muito com isso, só queria descansar. Chegou até a olhá-los com uma certa indiferença. E o padre não parava de falar (“IRMÃOS! IRMÃOS!”) o que, de certa forma, não mais o atormentava.
Uma hora, inesperadamente, todos começaram a lhe jogar flores e ele, ainda sério, não entendia o que fizera de tão bom pra merecer tanto. Mesmo assim, não conseguiu, sequer, sentir-se lisonjeado. Continuava frio, indiferente a qualquer homenagem que lhe fizessem, fossem sorrisos, lágrimas ou flores. Recebia tudo com uma desmedida indiferença e até seriedade. Quando o cobriram de terra, sentiu que sua vida se fechava pra sempre e, mesmo assim, continuou indiferente.
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