Antônio Lemos Augusto, jornalista e advogado em Cuiabá-MT
Em um desses filmes de terror, o monstro andava e deixava, pelo caminho, partes do seu organismo. Ah, se tivéssemos um microscópio que nos acompanhasse, verificando o que vamos deixando por aí!
Só de fios de cabelo... Por dia, derrubamos algumas dezenas deles em todos os lugares. Uma repartição pública, por exemplo, tem um festival de DNAs pelo chão, de todas as cores e usando todas as marcas de tingimento: fios loiros, castanhos, negros, vermelhos e até azuis e por aí vai.
Gotículas de saliva também são derramadas por todos nós, sem percebermos, onde quer que estejamos. O interlocutor da frente nunca está totalmente livre de receber uma amostra de nossa saliva em alguma parte do corpo.
Deixamos também pedaços de unha, de secreções nasais, deixamos lágrimas e gases... quantos gases!
Deixamos cravos, espinhas, por vezes até sangue, e suor, muito mesmo.
Soltamos continuamente pedaços de pele morta - e que são responsáveis pela composição de boa parte da poeira que respiramos. Olhar a própria pele com uma lente de aumento poderosa é assustador. Dá para ver os ácaros comendo o tecido morto.
Cada um de nós, quando volta para casa, está repleto de pedaços de outras pessoas. Se um detector existisse para apontar o que não é nosso, mas está em nossa roupa ou preso em nosso cabelo ou em outra parte qualquer, ficaríamos espantados e talvez com algum descompasso estomacal. Talvez por isso mesmo não exista tal equipamento, posto que – por vezes – a ignorância é o melhor remédio.
E nos sentamos no sofá da sala ou na cama do quarto ou à mesa do jantar e por lá ficam as partes dos colegas de trabalho ou dos anti-colegas do dia-a-dia ou mesmo de quem nunca conhecemos, mas que passou ao nosso lado pela rua e tossiu, deixando – democraticamente – alguma parte dele em nossa companhia.
A vida, portanto, é um eterno compartilhar.
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