Por Daniela Lepinsk Romio, jornalista e palpiteira de plantão
Leia o “Livro das Mil e Uma Noites”, traduzido do árabe para o português por Mamede Mustafá Jarouche. São dois volumes (por enquanto) que trazem o chamado ramo sírio das histórias da esperta Sahrazad, inventora da novela das oito. O começo da história é mundialmente conhecido: um rei, desiludido com o comportamento traiçoeiro das mulheres, decide tomar uma nova esposa a cada noite, matando-a pela manhã. Após centenas de mortes, a filha do vizir decide se oferecer como nova esposa ao rei, traçando uma estratégia arriscada: ela começa uma história que, quando rompe o dia, está no auge do suspense. Assim, o rei adia sua morte, curioso para ouvir o desenlace, e assim as coisas vão, até que ele desista definitivamente de acabar com Sahrazad.
O problema é que as histórias de Sahrazad divulgadas no ocidente até então eram bastante infantilizadas - as originais são mais pesadas. Algumas são bastante cruéis, outras são mais eróticas, outras são mais delicadas. É interessante notar o abismo cultural que nos separa - ocidentais do século XXI - daquele cenário, onde meninas virgens são vendidas com a maior naturalidade e sem reclamar, suspeitos de crimes são torturados e executados da forma mais arbitrária e o preconceito contra a diferença é escancarado. Ops... meninas virgens vendidas a brutamontes? Tortura e execução arbitrária? Preconceito? Que abismo cultural, nada!
Não deixe de ler. É diversão garantida, senão por mil e uma, ao menos por vinte ou trinta noites. Editora Globo, 422 e 352 páginas.
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