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O réu previdenciário

 
 
10/04/07  - O réu previdenciário
 
Antônio Lemos Augusto, jornalista e advogado em Cuiabá-MT

Há peritos do INSS que destratam os pacientes. Há peritos do INSS que não deixam os pacientes entrar no consultório acompanhados de um familiar, um direito garantido. Há muitos peritos do INSS cujos laudos são revertidos na Justiça, justamente porque não reproduziram a verdade em relação às pessoas atendidas. Ou há incapacidade técnica na elaboração desses laudos ou há alguma orientação do governo federal para dificultar a concessão de benefícios, passando por cima da veracidade e da ética.

No dia 08 de abril de 2007, uma reportagem do Fantástico apresentou o sistema previdenciário brasileiro como um dos melhores do mundo. Toda a matéria foi feita com base em um estudo do próprio governo federal. Todas as pessoas ouvidas defendiam a tese da reforma da previdência em detrimento dos benefícios hoje existentes. Em momento algum a reportagem ouviu um representante sequer de idosos, de aposentados, de beneficiários, da oposição. Um cidadão deu entrevista dizendo que os benefícios favorecem mais a classe média, por isso devem ser enxugados. Não conhece o que é ser beneficiário de auxílio doença no Brasil.

Tem o caso do portador de deficiência mental desde quando nasceu. Recebia o benefício “pensão por morte”, em virtude do falecimento da mãe. Em regra, esse benefício é cessado quando o cidadão completa 21 anos, salvo se justamente possuir deficiência física ou mental que o incapacite para a vida própria. E o INSS cortou o benefício... O perito não conseguiu diagnosticar a doença mental anterior aos 21 anos. Escreveu que a doença mental começou imediatamente após o cidadão completar 21 anos, como que de repente. E, se começou depois, tinha que cortar o direito. Isso apesar de todo o histórico de saúde do cidadão demonstrando tratamento psiquiátrico da infância até hoje. A justiça já mandou voltar a pagar.

Tem um casal com doença de chagas crônica: homem e mulher. O INSS cortou o benefício. Doença de chagas para o perito do INSS não é motivo de receber benefício. A justiça já mandou voltar a pagar.

São dois exemplos aqui. Nenhum deles da classe média ou alta. Há centenas, milhares outros. Basta dar uma lida nas decisões judiciais do dia-a-dia.

Casos assim entopem a justiça brasileira. É desumano. Os relatos de idosos e doentes comovem. A ouvidoria do INSS não funciona. Se a verdade sobre o atendimento da Previdência brasileira fosse a relatada pelo Fantástico, juízes em todo Brasil não estariam se debruçando sobre processos que têm o INSS como réu.

Mas, claro, para o governo brasileiro e para a mídia tudo isso não passa de nada. Que venha a previdência privada, com seu lobby. Que o Estado brasileiro se torne ainda mais mínimo, abrindo mão de uma das poucas áreas sociais ainda existentes.

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