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Chupa essa manga!

 
 
29/03/07  - Chupa essa manga!
 
Antônio Lemos Augusto, jornalista e advogado em Cuiabá-MT

A língua portuguesa é rica em criar novas conotações para as palavras. Aquela história da manga, que é fruta, mas que também é parte da blusa e também é até gíria... “Colocar as mangas de fora”.

Surgiu uma nova conotação para a palavra “democrata”, criada pelos filólogos do PFL. A turma do Partido da Frente Liberal mudou o nome da sigla para Democratas, fato anunciado em 28 de março. Democrata é aquele que professa os princípios da democracia, segundo o bom dicionário Houaiss. E, ainda conforme Houaiss, democracia é o sistema político cujas ações atendem aos interesses populares. Mas, agora, tudo mudou... A palavra ganhou nova conotação e perdeu em importância no nosso país.

Claro, não há qualquer compatibilidade entre o termo “democrata” e os princípios defendidos pelos antigos membros do PFL, que já foi PDS e que antes era Arena e que, como PDS e como Arena, tinha os seus integrantes como mantenedores e defensores do regime militar, ditadura política, social e econômica. Essa mesma turma que, na Constituinte, entre 1986 e 1988, votou contra todas as propostas voltadas a interesses sociais e populares. O povo da desregulamentação dos direitos trabalhistas. O time do combate à reforma agrária. A equipe do Estado em prol do paternalismo para os que sempre ocuparam o poder.

Foi interessante ver um dos antigos membros do PFL, originário lá dos tempos do PDS, falar na TV que agora o partido irá sair dos gabinetes para se preocupar com as causas sociais... Ah, bom! Tanto quanto um cadáver pode sair do túmulo. A questão não é criticar o direito dos integrantes do PFL, agora “Democratas”, de terem a ideologia que quiserem ter. A questão é não existir conciliação entre tal ideologia e o nome que se vincula ao partido que a sustenta. A questão, portanto, aqui, é de caráter.

Antônio Carlos Magalhães, avô e neto, podem afirmar agora que são “Democratas”, mas tal afirmativa prende-se tão somente ao nome do partido, porque o termo histórico, sociológico e cultural não os engloba. Assim como não engloba a família Campos, em Mato Grosso. Ou não engloba João Alves Filho, em Sergipe e por aí vai. Talvez um dos poucos, senão único, integrante do agora Democratas que tenha um passado de luta pela democracia seja César Maia, prefeito do Rio de Janeiro, que tem o seu histórico no trabalhismo e que sofreu o exílio. É a exceção para confirmar a regra.

Então o usineiro, sempre filiado ao PFL, de uma hora para outra, se transforma em “democrata”, quando sabemos que o maior índice de trabalhos análogos à condição da escravidão se encontra no setor. Então o coronel baiano, de uma jogada de marketing, planejada por algum publicitário qualquer, agora é “democrata”. O marketing faz coisas incríveis, até criar conotações: pagando bem...

Como diria o quadro humorista: “Chupa essa manga!”.

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