Antônio Lemos Augusto, jornalista e advogado em Cuiabá-MT
Em uma escola pública, Estado do Rio de Janeiro, conheci um adolescente extremamente inteligente lá nos anos 80. Ele fugira da casa dos pais, zona da mata de Minas Gerais, onde morava no campo em meio a um canavial. Era constantemente surrado pelo pai porque queria estudar, ao invés de cortar cana. Um dia, com seus 14 anos, arrumou uma carona e foi parar na casa de uma tia, em outro estado.
Matriculou-se na escola pública. Morava a cinqüenta minutos, de ônibus, do colégio. Claro, tinha que trabalhar para se sustentar, mas já dava para conciliar mais ou menos com o estudo, ao contrário do que ocorria no canavial. Era extremamente inteligente. E era extremamente religioso (eu, meio ateu na época, perdia quase sempre o debate). E, em momento algum, era flagrado sem um sorriso.
Perdi o contato com o rapaz por uns dois anos. Fui reencontrá-lo novamente em outra cidade, sem querer, andando na rua. Tinha se mudado para lá porque havia uma universidade federal onde pretendia estudar, cursando Odontologia. Sonhava com a profissão. Mas sabia que a escola pública lá do interior do Rio de Janeiro (ou de qualquer lugar, salvo exceção para confirmar a regra) raramente fornece condições para que se entre em um curso concorrido de uma outra escola pública, porém de nível superior. Paradoxo já banalizado.
Para compensar o fraco ensino de segundo grau que tivera, matriculou-se à noite em um “cursinho”. Mas, para pagar o cursinho, trabalhava o dia inteiro em um açougue. Saía do açougue e, sem mesmo conseguir um tempo para tomar um banho, corria para a aula. E, cedo, dia seguinte, voltava ao açougue... Tudo isso, morando sem as condições adequadas de se morar.
Eu o encontrei pela última vez na semana do vestibular, logo depois de uma das provas. Estava animado. Lutara desde os tempos em que era surrado pelo pai, no canavial, até aquela data para conseguir entrar na universidade. Fugira de casa, trabalhara e estudara sem perder o riso no rosto. Faltava pouco.
Nunca mais o vi. Quando saiu o resultado do vestibular, o nome dele não estava lá.
É o Brasil.
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