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Sobre dor, maldade e um peixinho vermelho |
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| 15/02/07 |
- Sobre dor, maldade e um peixinho vermelho |
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Por Daniela Lepinsk Romio, jornalista e palpiteira de plantão, mas que às vezes cala
O peixe apareceu sem ser convidado, quase um ano atrás. Veio em um aquário redondinho, com pedras azuis no fundo. Ter um peixe fazia parte de um projeto da escola do meu filho, 5 anos, bochechas rosadas e a cara mais feliz do mundo, cheio de excitação com a propriedade, finalmente, de um bicho vivo. Criança de apartamento é isso mesmo. Sabia de cor todas as instruções: três bolinhas de comida uma vez por dia, trocar a água semanalmente, não colocar água da torneira sem deixar descansar antes para baixar o cloro, não lavar o aquário com sabão.
O peixe ganhou um nome: Tico. Na verdade, não gostei muito. Para mim, peixe tem que ter nome de gente e com pelo menos três sílabas. Ulisses, Homero, Godofredo, Dagoberto. Mas tudo bem: o peixe não era meu, era do meu filho.
O fato é que eu fui desenvolvendo uma certa relação de afetividade com o peixinho vermelho. Achava muito estranho passar ao lado do aquário, sabendo que um ser vivo estava ali dentro, e não cumprimentar. Pois é, comecei a falar com o peixe. E acho que ele passou a gostar de mim também, pois normalmente a minha presença estava diretamente relacionada às bolinhas de ração. Que rapidamente aumentaram - duas porções diárias de cinco bolinhas. Ninguém merece comer uma só vez por dia.
O peixe nunca demonstrou muito brilhantismo. Às vezes, demorava séculos para encontrar as bolinhas na superfície. Nas trocas de água semanais, nunca aprendeu que a peneirinha não ia fazer nenhum mal - dava voltas e voltas no aquário, fugindo de mim e ouvindo meus palavrões. Eu cheguei à conclusão de que ele não era muito normal.
Há duas semanas, o peixe ficou doente. Um dos olhos inchou. Comprei três tipos diferentes de remédio, que custaram mais que o preço de um peixe novo. Tratei durante quase dez dias, fracionando dosagens e pingando coisas estranhas na água - que, ora ficava azul, ora amarela. Ele foi ficando quietinho, não queria mais comer, nadava com lentidão. E morreu. Depois de uma tarde mais sofrida, ficou lá parado, no fundo do aquário, de lado. Eu chorei. Fiquei triste, esperando que ele soubesse que eu não falava a sério quando dizia que ele não era normal.
Meu filho, de férias na casa da avó, demorou mais para ficar sabendo. O que não reduziu o tamanho do desastre, pois tive um momento de cretinice e contei para ele, por telefone. Ele parecia tão adulto, achei que fosse mais fácil ficar sabendo logo. Mas o moleque ficou arrasado, chorou e soluçou um tempão. Disse que eu deveria ter deixado o peixe morto no aquário, para que ele pensasse que o amiguinho estava só dormindo.
Na verdade, quase todo mundo que conheço apoiava minha primeira idéia: comprar um peixe novo, da mesma cor, substituir o Tico e não deixar que meu filho soubesse. Ponto final. Mas eu não consegui. O peixe era um projeto dele, mas se tornou uma partezinha do meu dia-a-dia, e a gente é responsável pelo que cativa etc, etc. Era um peixe cativado, não um peixe qualquer.
E por que estou falando disso tudo? Porque várias pessoas me sugeriram escrever sobre aquela criança linda que foi morta no Rio de Janeiro, arrastada pelas ruas. Só que não dá para escrever sobre aquilo. Desde que li a notícia, imagino detalhes da cena a cada vez que estou sozinha, a cada vez que fecho os olhos, a cada vez que paro para pensar na vida. Um limite foi ultrapassado ali e isso fez de mim uma pessoa pior. Sei que não adianta nada, mas ainda assim fico o tempo todo desejando sofrimento lento e profundo aos caras que fizeram aquilo. Isso só me faz mal. Preciso me agarrar a outras histórias neste momento. Acho que no fundo todos precisamos, pelo menos um pouco. Não para esquecer. Só para não pirar.
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