Antônio Lemos Augusto, jornalista e advogado em Cuiabá-MT
A moda na música pode ser interessante, mas sempre muda, como em todo setor. E, depois de mudar, somente sobrevive quem realmente é bom. Não há indústria cultural que mantenha um produto ruim no mercado, depois que a onda da moda em que tal produto surfou se acaba na praia. E isso ocorreu com a onda pagodeira que varreu as emissoras de TV e rádio nos anos 90.
Pagode é um estilo musical de excelência e importância, genuinamente nacional e que sempre gera grandes artistas. Mas veio o modismo, que propiciou a formação de dezenas de grupos que se repetiam em músicas melosas, coreografias armadas, ao ponto de virar quadro de humor na TV Globo, com o “sambabaca”. Alguns grupos que surgiram nessa onda eram bons e continuam, mas quantos desapareceram e estão esquecidos? A mesma onda cultural passeou pelo sertanejo e pelo rock.
É uma falsa verdade afirmar que o modismo, se incentiva dezenas de lançamentos sem mérito, também favorece o surgimento do bom artista. O que a indústria cultural quer é o produto que se encaixa à receita mercadológica de consumo rápido, o que - por vezes - afasta o bom compositor ou intérprete. Ou o artista se enquadra ou não grava. E se enquadrar, por vezes, significa assimilar as imposições do produtor musical.
Ao final da onda musical do pagode, percebe-se que os artistas que vendem bem e se mantêm respeitados no círculo cultural, em grande parte, são os mesmos de antes do modismo. Salve Martinho da Vila! Salve Zeca Pagodinho! Salva Beth Carvalho! Salve Jorge Aragão! Salvem tantos outros que fortalecem o samba e todas as suas variações, incluindo o pagode.
Mas no período do modismo do pagode, apesar do vendaval de produtos ruins, surgiram grandes artistas. Aqui importa uma homenagem a Dudu Nobre, que há anos está na abertura do seriado “A grande família”. A produção de Dudu Nobre nada tem a ver com o “sambabaca”. Além de compositor, é excelente intérprete, seguindo a trilha carismática de Martinho da Vila e Zeca Pagodinho. Nobre passeia pelas diversas variações do samba e, embora jovem, já deixou composições para a história da MPB.
Enfim, o modismo tem seu lado positivo, despertando o interesse da sociedade para o estilo alvo, como ocorreu com o pagode. Mas, ao mesmo tempo, joga no balaio comum produções lançadas em grande estilo, mas sem qualquer conteúdo, que sufocam grandes artistas. Essencial é que, ao final do modismo, o que está dentro desse balaio passe pela peneira, quando somente o bom artista permanece.
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