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Neve

 
 
16/01/07  - Neve
 
Por Daniela Lepinsk Romio, jornalista viciada em leitura

Leia o livro Neve, do romancista turco Orham Pamuk. Pamuk foi o vencedor do Nobel de Literatura em 2006 e afirma que Neve é seu primeiro e único romance político. Na verdade, nem sei direito porque quis tanto ler esse livro. Às vezes tenho essas coisas, um sentimento instintivo quando vejo um livro com uma capa interessante e um bom título. Meus dedos ficam coçando para pegar, folhear, ler as orelhas, dar uma checada no início do primeiro capítulo... sei lá, é coisa de faro. Meu faro costuma ser bom.

Neve trata de assuntos da Turquia, mas que são globais. Religião, política, poesia, gente meio fracassada, pobreza, arte, amor, beleza, atitude. Em um país de maioria muçulmana que tenta se manter laico, coisas simples para o ocidente em geral podem se tornar muito complexas. Entre outros pontos interessantíssimos, o livro trata da questão do véu. No caso da Turquia, jovens muçulmanas foram proibidas de freqüentar as aulas se não tirassem o véu - ao contrário do que acontece nos países em que o Estado é muçulmano.

O livro se passa em dois tempos, separados por um intervalo de quatro anos. Um poeta turco exilado há 12 anos na Alemanha volta à Turquia e vai à pequena cidade de Kars, a pretexto de escrever sobre eleições e sobre suicídios sucessivos de jovens muçulmanas. Na verdade, o que ele busca mesmo é rever uma antiga colega e se casar com ela.

O escritor usa um recurso que faz toda a diferença entre uma história genial e outra medíocre: ele não é onisciente. Com isso, alguns pontos importantes ficam obscuros. Poemas apenas descritos, mas que nunca chegaremos a ler. E um pequeno jogo final à moda de Capitu, que deixará para sempre no ar a dúvida sobre uma traição. Não, não estou contando o fim do livro, apenas tentando expressar um pouco da minha impressão sobre ele. É um best-seller, já vendeu inúmeras cópias no mundo inteiro, então você vai encontrar outras críticas facilmente na Internet. O que posso dizer, em resumo: é um livro sério, adulto, nada otimista e muito, muito bem escrito. Vale a pena. São 488 páginas editadas pela Companhia das Letras.

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