Antônio Lemos Augusto, jornalista e advogado em Cuiabá-MT
Com a morte de Pinochet, no Chile, é bem relevante lembrarmos de músicas, da nossa MPB, que criticaram os nossos pinochets brasileiros. Há músicas que se tornaram símbolos de momentos políticos no Brasil. Lembrei-me, outro dia, de “Coração de Estudante”, que ficou conhecida como o símbolo da redemocratização do país, com o retorno da milicada aos quartéis, nos anos 80. Composição de Wagner Tiso e Milton Nascimento, tem uma letra belíssima.
Chico Buarque, em parceria com Francis Hime, fez “Vai passar”, também referência à redemocratização brasileira, um sambão jóia, salvando a passagem do “estandarte do sanatório geral” e festejando o fim da “página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações”.
Outra música, também com letra histórica, é “O bêbado e o equilibrista”, resultado da parceria de João Bosco e Aldir Blanc e que foi magistralmente gravada por Elis Regina. Representou a volta dos exilados ao Brasil, no final dos anos 70. Na letra, referências ao período político difícil, de um Brasil que sonhava pela volta do irmão do Henfil.
“Pra não dizer que eu não falei de flores”, obviamente, é outra marca histórica da MPB. A música de Geraldo Vandré, considerada por Ziraldo como a “Marselhesa brasileira”, é ainda hoje regravada costumeiramente: “Há soldados armados, amados ou não / quase todos perdidos de armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição / De morrer pela pátria e viver sem razão”. É claro que os generais de plantão não gostaram.
Voltando a Chico Buarque, tem “Roda Viva”, que não se sabe bem ainda se foi feita realmente para criticar a ditadura mas que, enfim, acabou sendo conhecida com tal finalidade. Afinal, uma roda viva que leva embora tudo de bom - a voz ativa, a linda roseira, a viola e até a saudade - só podia mesmo ser coisa do governo militar da época.
Enfim, Pinochet se foi. Há a “leve impressão de que já foi tarde”. Que leve com ele tudo de ruim que o fardamento deixou na política da América Latina, mas que fiquem as músicas, belas músicas, da resistência cultural.
|