Simone Alves, jornalista em Mato Grosso
João Cabral de Melo Neto fez o poema “Questão de pontuação” para exprimir as várias faces do ser humano e, por isso, vale a pena retransmiti-lo.
O ser humano é feito de desejos, surpresas, emoções, decisões e criações. Tem vontade própria, ou seja, tem livre arbítrio, que se entende também pelo direito de ir e vir, pela capacidade de tomar decisões, sejam elas certas ou erradas. Por isso, vive em “ponto de exclamação”.
O “ponto de interrogação” nasceu com a decisão de questionar o mundo, as coisas do mundo e a si mesmo. Vive procurando respostas para tudo, às vezes ainda inexistentes, como é o caso da criação do universo. Sobre isso ele teve e tem teorias que resumem sua capacidade de imaginar. Sua imaginação se torna criação, embora - às vezes - seu enorme potencial de criatividade pareça ficar recolhido em sua massa cinzenta.
Além de todos esses “talentos”, tem ainda a emoção, que faz rir, chorar, produzir variadas caretas, abraçar, beijar, gritar, pular etc. Logo, o homem é um poço de sentimentos. Tanto sentimento o faz buscar sempre mais, sempre caminhar e fingir que o fim (inevitável) não existe.
Esse texto será sempre atual.
Questão de pontuação
João Cabral de Melo Neto
Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);
viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):
o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.
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