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| 15/11/06 |
- Secos & Molhados |
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Antônio Lemos Augusto, jornalista e advogado em Cuiabá-MT
Um grupo que revolucionou a Música Popular Brasileira foi, sem sombra de dúvida, Secos & Molhados. No início dos anos 70, lançou dois discos que deram sangue novo para a musicalidade brasileira, principalmente o primeiro deles. Felizmente, é possível comprar, hoje, uma coletânea com todas as músicas desses dois discos por um preço bem acessível. “Sangue latino” é uma das músicas que ainda hoje é sempre lembrada: Jurei mentiras e sigo sozinho / assumo pecados / o vento do norte não move moinhos / e o que me resta é só um gemido...
Há mais: os versos de Vinicius de Moraes em “A rosa de Hiroxima” ficaram muito bem na voz de Ney Matogrosso que, para quem não sabe, era o vocalista de Secos & Molhados. Pensem nas crianças mudas, telepáticas / Pensem nas meninas cegas, inexatas / Pensem nas mulheres rotas, alteradas / Pensem nas feridas como rosas cálidas. Outra música que se popularizou foi o gato preto cruzou a estrada / passou por debaixo da escada / e lá no fundo azul na noite da floresta / a lua iluminou / a dança, a roda e a festa..., versos de “O vira”.
Secos & Molhados era formado por João Ricardo, criador do grupo e cérebro dele, Ney Matogrosso e Gerson Conrad. Em 1973, os três lançaram o primeiro disco e logo se tornaram um fenômeno musical. Já no ano seguinte, lançaram o segundo disco. Infelizmente, a banda acabou logo depois: João Ricardo, autor da maioria das letras, saiu para fazer disco solo. Até hoje, ele e Ney Matogrosso guardam mágoas um do outro.
Alguns anos depois, João Ricardo tentou refazer o Secos & Molhados com outros integrantes, mas não deu certo. Na verdade, a fórmula funcionava com o somatório da genialidade letrista e poética de João Ricardo com a voz e o brilho de palco de Ney Mato Grosso, acrescidos com a performance vocal de Gerson Conrad.
O que Secos & Molhados deixou para a MPB não foi pouco. Em primeiro lugar, a poesia moderna entrou de vez na música brasileira. Em segundo lugar, em plena ditadura militar, os três faziam apresentações totalmente inusitadas para a época, com alta dosagem teatral e crítica aos costumes. E, finalmente, a voz feminina de Ney Matogrosso mostrou uma nova forma de se cantar, ainda imbatível em seu estilo.
Outra contribuição do grupo foi à criatividade das capas do LP. O primeiro disco tem uma capa memorável: As cabeças dos integrantes sobre a mesa. Desse disco, além de Sangue Latino, O Vira e A Rosa de Hiroxima, convém realçar a fantástica “O patrão nosso de cada dia”, a forte “Primavera nos dentes” e a bela “Fala”, todas com letras questionadoras. Por exemplo: Eu vivo preso a sua senha / sou enganado / Eu solto o ar no fim do dia / Perdi a vida / Eu já não sei se sei de nada ou quase nada / Eu só sei de mim / Só sei de mim / só sei de mim (O patrão nosso de cada dia) ou Eu não sei dizer / Nada por dizer / Então eu escuto / Se você disser / Tudo que quiser / Então eu escuto / Fala / Se eu não entender / Não vou responder / Então eu escuto / Eu só vou falar / Na hora de falar / Então eu escuto / Fala. Esta última letra, apesar de aparentemente não ter sido a intenção de João Ricardo, era bem apropriada para a época de censura extrema do Governo Militar.
Do segundo disco, a música mais conhecida é “Flores astrais”, regravada por RPM nos anos 80. Um grito de estrelas vem do infinito / E um bando de luz repete o grito / Todas as cores e outras mais / Procriam flores astrais / O verme passeia na lua cheia. Este disco radicaliza o tom experimental do grupo. Não tem a mesma envergadura do LP inaugural, mas é ainda assim uma obra clássica.
Após, outros LPs vieram, mas já com outra formação do Secos & Molhados, o que realmente não conta. Uma ou outra música de destaque, mas nada que se compare à obra conjunta de João Ricardo, Ney e Conrad.
Essencial deixar uma letra de brinde. Abaixo, Primavera nos dentes, de João Ricardo e João Apolinário.
Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
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