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A religiosidade na MPB

 
 
24/10/06  - A religiosidade na MPB
 
Antônio Lemos Augusto, jornalista e advogado em Cuiabá - MT

A Música Popular Brasileira está repleta de religiosidade. São obras que se perpetuam, entra ano, sai ano. Gosto muito, por exemplo, de Gilberto Gil cantando “Olha, lá vai passando a procissão / Se arrastando que nem cobra pelo chão / As pessoas que nela vão passando / acreditam nas coisas lá do céu / As mulheres cantando tiram versos / E os homens escutando tiram o chapéu / Eles vivem penando aqui na terra / Esperando o que Jesus prometeu”.

Talvez a música mais famosa em termos de religiosidade seja a clássica “Jesus Cristo”, de Roberto e Erasmo Carlos. Feita nos anos 70, já correu o mundo e se tornou uma das preferidas do Vaticano. Com um ritmo forte, tem versos marcantes: “Olho pro céu e vejo uma nuvem branca que vai passando / Olho pra terra e vejo uma multidão que vai caminhando / Como essa nuvem branca essa gente não sabe aonde vai / Quem poderá dizer o caminho certo é você meu pai”.

Outra grande música repleta de religiosidade é “Romaria”, de Renato Teixeira, magistralmente gravada por Elis Regina. Ao final, diz: “Me disseram porém / que eu viesse aqui / Pra pedir de romaria e prece paz nos desaventos / Como eu não sei rezar / só queria mostrar / Meu olhar, meu olhar, meu olhar”. Por falar em Elis Regina, a moça tinha realmente o dom de interpretar músicas com essa temática. Quem não se emociona em ouví-la cantando “Se eu quiser falar com Deus”, de Gilberto Gil? A letra, aliás, é pura poesia: “Se eu quiser falar com Deus / Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz / Tenho que encontrar a paz / Tenho que folgar os nós / dos sapatos / das gravatas / dos desejos / dos receios / Tenho que esquecer a data / tenho que perder a conta / Tenho que ter mãos vazias / Ter a alma e o corpo nus”.

Há mais: Zé Geraldo fez “São Sebastião do Rodeio”. Amelinha gravou “Foi Deus quem fez você”. Outra magistral de Roberto Carlos: “Todos estão surdos” - Tanta gente se afastou / Do caminho que é de luz / Pouca gente se lembrou / Da mensagem que há na cruz / Mas meu amigo volte logo / Venha olhar pelo meu povo / O amor é importante / Vem dizer tudo de novo.

Das Minas Gerais, vem “Calix Bento”, retirada do folclore por Tavinho Moura e levada para todo o país por Milton Nascimento. É de Tavinho, também, em parceria com Fernando Brant, a música “Paixão e fé”: “Já bate o sino, bate no coração / E o povo põe de lado a sua dor / Pelas ruas capistranas de toda a cor / Esquece a sua paixão para viver a do Senhor”. Voltando a Milton, ele fez a bela “Fé cega, faca amolada”.

Comecei este texto com Gilberto Gil, ao falar de “Procissão”. Ao meio, novamente Gilberto Gil, com “Se eu quiser falar com Deus”. Para terminar, ninguém melhor do que ele de novo: Gilberto Gil é, certamente, um dos músicos que melhor sabe colocar a religiosidade na MPB. É dele o “Baião da Penha”, tão bem gravada por Luiz Gonzaga: “Demonstrando a minha fé / Vou subindo a Penha a pé / Pra fazer minha oração / Vou pedir à padroeira / Numa prece verdadeira / Que proteja o meu baião / Penha, Penha, eu vim aqui me ajoelhar / Venha, venha trazer paz para o meu lar”.

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