Antônio Lemos Augusto, jornalista e advogado em Cuiabá-MT
Neste mês em que se completa mais um ano do distanciamento de Renato Russo, importa sim lembrar de alguns nomes da Música Popular Brasileira que partiram precocemente. Talvez até formar um bom time de futebol, com seus 11 craques, que foram embora antes do tempo. Vamos lá, não necessariamente na posição do esporte ou na ordem de importância. Também sem qualquer pretensão de comparação. E, ainda, pedindo desculpas por deixar outros inesquecíveis nomes de fora (Tim Maia e Raul Seixas, por exemplo, que já foram reverenciados neste site), afinal toda lista é crítica.
1 - Começo com Noel Rosa. Ele é o pai da MPB, sim senhor! Mudou o estilo da música brasileira e criou uma fonte onde todo mundo que é artista passa para beber, mesmo sem saber. Partiu em maio de 1937, com apenas 26 anos, mas deixou mais de 100 músicas, que foram unidas em uma coletânea lançada há poucos anos. O Rio de Janeiro parou para homenageá-lo no seu sepultamento. Um jornal manchetou: “Faleceu o maior cantor da alma carioca”. Entre as produções deixadas, destaco “Conversa de botequim”, “Palpite infeliz”, “Feitio de oração”, “O orvalho vem caindo”...
2 - Francisco Alves, ou “Chico Viola”, encantava o Brasil com sua voz. Com 54 anos, em um acidente na Via Dutra, faleceu no auge do reconhecimento pelo público, no ano de 1952. Uma de suas qualidades: cantava qualquer gênero, sem preconceitos. Outra: tocava violão como ninguém. Mais uma: também compunha com destaque. Fez parceria com Carmem Miranda. Cantou músicas de Carlos Gardel em plena Argentina. Um mar de gente foi para as ruas se despedir dele.
3 - Carmem Miranda é outra da geração formadora da MPB que partiu precocemente, com apenas 46 anos, em agosto de 1955. Além de excelente artista e cantora, tinha o dom de descobrir talentos: Que o diga Dorival Caymmi. Conquistou o cinema americano e ainda hoje é lembrada em Hollywood. A baixinha se transformou em um mito.
4 - Outra voz feminina que encantou o país: Maysa. Com 40 anos, foi vítima de um acidente automobilístico na ponte Rio-Niterói, em 1977. Além de grande intérprete, também era compositora. Escreveu “Meu mundo caiu”. Talvez a mais bonita interpretação da clássica “Noite de paz”, de Dolores Duran, seja na voz de Maysa. O bolero brasileiro tem Maysa como sinônimo.
5 - Ainda na ala feminina, citar Elis Regina é obrigatório. Ela não era compositora, mas nem precisava: quantos compositores foram lançados pela voz de Elis? Transitava em diversos estilos. Brincava com a voz. Encantava de Tom Jobim ao brasileiro mais desconhecido. Com apenas 36 anos, foi embora em 1981.
6 - O Brasil que chorou Elis, dois anos depois perdeu Clara Nunes, com 39 anos. Clara era a mineira mais baiana e “carioquizada” que existia. Samba de roda era com ela mesma. Tinha uma voz forte, que bem interpretava músicas de peso, como “Canto das três raças” e “Candongueiro”.
7 - Se é para falar de voz potente, Jessé não pode ficar de fora. Foi outra vítima de acidente de carro: faleceu aos 41 anos, em 1993. Uma das mais emocionantes interpretações dos festivais de música da MPB foi dele, com “Porto Solidão”, em 1980. Aliás, ganhou - com essa apresentação - o prêmio de melhor intérprete. Mas também era compositor: fez “Estrelas de papel”, uma de suas principais canções.
8 - Taiguara também foi embora precocemente, com apenas 51 anos, em 1996, com câncer. Fez algumas das mais belas canções da MPB (embora fosse uruguaio). A belíssima “Hoje” está no meu rol de músicas de excelência. Foi um dos compositores da MPB que mais soube unir música à poesia. Infelizmente, a censura da Ditadura Militar o perseguiu e o prejudicou: teve 68 músicas censuradas.
9 - Dando um salto para o período mais recente, Chico Science representou uma nova revolução na MPB, com a introdução de uma batida africana forte, misturada com o maracatu, com o rock, com influências da música nordestina, com o hip hop etc. Criou o movimento Mangue Beat. Tinha grande poder de palco. Escreveu “A cidade”, “A praieira”, “Rios, pontes e overdrives”. Mas foi embora com apenas 33 anos, em 1997, outra vítima de acidente de carro.
10 - Cazuza entra na lista, claro. Grande compositor, deixou algumas das principais músicas da MPB no final do século XX. Partiu com 32 anos, em 1990. Escreveu “Blues da piedade”, talvez uma de suas melhores produções. Em parceria, fez “Codinome beija-flor”. Gosto particularmente de “Eu queria ter uma bomba” e “Down em mim”. Teve o mérito de romper, já nos anos 80, a barreira entre o rock e o samba, louvando o grande Cartola.
11 - Para fechar a relação, o time se completa com Renato Russo que, com a sua Legião Urbana, segue tocando sem parar.
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