Antônio Lemos Augusto, jornalista e advogado em Cuiabá-MT
Vida de goleiro é mesmo ingrata. Bastou o Dida falhar e levar um franguinho no final de semana que comentaristas de plantão colocaram em dúvida a capacidade dele em ser o titular da seleção brasileira na próxima Copa do Mundo. O atacante pode errar gols feitos, erros que - não raro - impedem a vitória de um time. Mas o goleiro... coitado do goleiro.
Dida é um grande goleiro. Sério, compenetrado, destacou-se para o cenário nacional ainda no Cruzeiro. Depois, passou pelo Corinthians e, de lá, para o mundo. Arrojado, com facilidade para pegar pênaltis, já salvou a seleção brasileira inúmeras vezes. Mas o passado de Dida não é levado em conta, afinal ele falhou em um gol: melhor crucificá-lo.
Ora, Marcos foi um excelente goleiro na copa passada. E Marcos tem, em seu currículo, frangos homéricos. E daí? Continua sendo um excelente goleiro.
Rogério é um dos melhores goleiros do país e fechou o gol na decisão do torneio mundial, final do ano passado. Mas, para a crítica, Rogério não serve para ser goleiro da seleção, afinal os arquivos das TVs têm suas falhas registradas. E daí? O torcedor do São Paulo sabe que, nos últimos dez anos, o principal jogador do time foi Rogério.
O que mede a atuação de um goleiro é a constância do seu rendimento. Ele vai falhar sim e falha de goleiro, não raro, se transforma em gol do adversário. Mas não é pela falha pontual que um goleiro deve ser julgado.
Há uma falsa mística de que o Brasil nunca gerou bons goleiros. É mentira! O Brasil não chegou ao pentacampeonato mundial apenas por causa de seus atacantes. O problema é que os filmes históricos sobre as copas do mundo não mostram as grandes defesas, fixando-se nos lances do meio de campo para frente.
Em 1950, crucificaram o goleiro Barbosa pela derrota do Brasil na final contra o Uruguai. A torcida, a imprensa, os cartolas esqueceram-se que o time não fez gols, que o meio de campo não funcionou, que houve falha da marcação no gol uruguaio do título. Já bem velhinho, em uma excelente entrevista para uma emissora esportiva, Barbosa narrou o quanto sofreu nas ruas do Rio de Janeiro com o preconceito e o desprezo por ter sido o goleiro da final perdida. Certa vez, uma senhora chegou perto dele, com a filha, e o apontou: “Veja, filha, foi ele quem traiu o Brasil”.
A crônica esportiva precisa fazer crônica esportiva que valha. Ah, o Dida falhou no gol!? Vamos então analisar como foram as participações dele nos últimos cinco jogos para fazermos uma crítica efetiva. Afinal, jornalismo exige apuração. Caso contrário, não é jornalismo.
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